A pergunta que eu mais odeio
- Victor Hugo Felix
- 18 de jun.
- 3 min de leitura

“Como uma pessoa como você nunca namorou?”
Ela chega num tom de elogio, acompanhada pela percepção de que eu sou uma pessoa com muitos atributos namoráveis. Ao que dizem, sou bonito, sexualmente atraente, inteligente, gentil, profissionalmente empenhado. Por que uma pessoa assim estaria sozinha por 34 anos?
A pergunta se desdobra numa crítica silenciosa. O que há de tão errado em você que todas as pessoas te abandonam em tão pouco tempo? Qual é o seu defeito que se sobressai a todas às qualidades? O que, afinal, te faz ser tão insuportável?
Não posso responder. Ainda que eu saiba, racionalmente, as origens da minha fragilidade emocional — mais de 25 anos no armário, sem a oportunidade de amadurecer as capacidades afetivas que viabilizam a vida a dois —, não tenho base alguma para compreender o que desperta o rápido desinteresse das pessoas por mim.
Nas relações, eu me esforço sem esforço. Busco naturalidade e espontaneidade, equilíbrio entre intensidade e leveza, para que nenhuma das partes se sufoque. Às vezes erro a dose, sou intenso demais, sou leve demais, sou apegado, sou desapegado… Ninguém é perfeito. Ainda assim, procuro sempre oferecer ao outro aquilo que quero receber: comprometimento e liberdade.
Não sou difícil. Sou seletivo, mas não exigente. Ainda que eu tenha critérios e prioridades nas qualidades de um parceiro, sou maleável, me permito o novo, gosto de aprender com cada pessoa que chega em minha vida, mesmo que não preencha todos os requisitos.
As minhas experiências amorosas, entretanto, tendem a repetir certos ciclos. Eu e a pessoa nos conhecemos, aprofundamos o vínculo, e quando eu começo a achar que a relação vai engatar, a pessoa se desinteressa. Não há desavenças, brigas, qualquer coisa que revele o incômodo que aquele relacionamento lhe causava. Apenas o silêncio da não reciprocidade.
Nos momentos em que eu percebia que a relação estava morrendo, cheguei a perguntar “a gente vai se ver de novo?” ou afirmar “eu não queria que a gente se afastasse”, para ter clareza do que estava acontecendo. Obtive como respostas as mentiras mais genuínas: “é claro que a gente vai se ver de novo” e “eu também não quero que a gente se afaste”. Mentira, mentira.
E aí fica nas minhas mãos a dúvida. Onde eu falhei? Por que se desinteressaram justamente quando eu acreditava que a relação fazia sentido de existir? Foi algo que eu falei? Algo que eu deveria ter feito e não fiz?
Quando eu converso com amigos e familiares, sempre me perguntam se eu sou emocionado, se eu forço a barra, se eu demonstro ciúmes, quando na verdade eu muito raramente falo em namoro com qualquer parceiro, mesmo em tom de brincadeira. Então me perguntam se eu sou frio, distante, desinteressado, quando na verdade eu sou presente, compreensivo e afetuoso.
Então não foi um erro direto meu, foi? Na última vez, cansei de ficar em dúvida e fui ao rapaz perguntar por que ele havia partido. Foi algo que eu fiz? Ele disse que não. A questão era apenas incompatibilidade.
Incompatibilidade no que, exatamente? Até hoje não sei e não saberei. Parece ser algo muito intrínseco à minha personalidade, algo que não vale a pena ser discutido, ao contrário de outras questões que de fato viram pauta em outros relacionamentos:
– Você nunca está presente quando eu mais preciso!
– Você não tem que ter ciúmes dos meus amigos!
– Você precisa ser mais organizado!
Essas coisas, até certo ponto, podem ser dialogadas, ajustadas, corrigidas. Aliás, expor esses problemas muitas vezes mostra um interesse do parceiro em lapidar a relação para que possam alcançar o que há de melhor nela. Evidencia que há ali um compromisso para que o relacionamento não morra.
Mas se o problema não vale o diálogo, seja porque está incrustado na identidade da pessoa ou porque o outro não tem interesse em fazer a relação durar, aí não tem jeito, o único caminho é suportar o luto da morte do relacionamento, mesmo.
Então, por que, afinal, as minhas relações não deram certo? Porque não quiseram que dessem certo. Me apaixonei em raras ocasiões e nunca nenhuma paixão foi correspondida. Isso é tudo que sei.
Constantemente reavalio meu comportamento para encontrar falhas e buscar corrigi-las. Faço terapia, meditação, estou sempre na luta para evoluir como pessoa e como parceiro. Mas é exaustivo se culpar por tudo sempre, tanto quanto é injusto culpar os outros por qualquer coisa. Deixa a vida seguir seu fluxo.
O é que pra ser já é.



Comentários