Gato branco
- Victor Hugo Felix
- há 2 minutos
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Na minha rua tem um gato branco, passo por ele todo dia quando vou para a academia. E sempre que o vejo tento pensar em algum poema a respeito.
“Gato preto leva fama
maz mau agouro
é o gato branco”
Nunca sai disso, não consigo completar ou lapidar a ideia. Mas na minha cabeça, é isso o que o gato branco representa: os pêlos alvos e o andar delicado escondem seus verdadeiros perigos. É o gato branco quem chega à noite, de mansinho, e entra nos sonhos para trazer os piores pesadelos. É ele quem perturba nosso sono, nos faz encarar nossas maiores inseguranças, refletindo em seus olhos amarelos o que tanto evitamos encarar.
O gato preto é soturno, nos remete à imprevisibilidade e à escuridão da noite. Mas só assusta. O horror, quem traz, é o gato branco.
Meu fascínio por esse gato e pelo que ele representa aos meus olhos é porque eu sempre quis ser assim, um perigo disfarçado de quietude e inocência. Um tipo de vendaval silencioso que traz o caos sem grande esforço. Um espelho quebrado que gera curiosidade e aversão, a cerca elétrica que te convida ao toque mesmo diante dos riscos. “Não mexe com ele, Victor Hugo é carne de pescoço”.
Porque comigo tudo quase sempre é muito fácil e compreensível. Meus limites são flexíveis e só depois de muito dizer sim que eu finalmente digo não - e só aí me vilanizo. Deus me livre incomodar, Deus me livre a descompostura.
De vez em quando, o cansaço do bom menino bate com força e eu me permito a impulsividade e o desleixo. Sempre quando preciso, urgentemente, ser mais eu mesmo do que qualquer outra coisa, abro mão da disciplina e dos tapinhas nas costas cheios de elogios para que eu possa sentir o prazer do desvio de rota. A essência, porém, segue intacta, como um gato preto bobo e inofensivo. Especialmente na adolescência, quando minha aparência não era das melhores, eu era um completo gato prato. Insistia numa postura que afastava as pessoas, enquanto no fundo, no fundo, não passava de um moleque manso, obediente, exemplar.
Eu queria ter sido gato branco, ou gato vermelho mesmo, cor de fogo, que queima tudo, exagera, extrapola, confunde, irrita, choca. Mas não, não, não… Nunca consegui.
Hoje o que consigo é ser um gato colorido. Equilibrado, talvez. Não passo despercebido, tampouco incomodo. Sims e nãos são bem distribuídos para que eu não passe tanta raiva. Mas há espaço para destemperos subaproveitados, não é à toa que eu sonho com tanta frequência que estou brigando com dezenas de pessoas ao mesmo tempo. É preciso falar, incomodar, incendiar, e deixar as pessoas comentando “O Victor Hugo não deixa nada barato, né?”. Devolver ao mundo o desconforto que me causam.
O gato branco da minha rua certamente não sonha que está discutindo com quem quer que seja. Ele é quem desperta em mim esses sonhos. Ele é quem reflete a minha rebeldia domada.



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